segunda-feira, junho 06, 2005

Por entre cotão e recibos de fotocópias

dei inicio ontem à noite ao longo e doloroso processo de fazer as malas de vila real. Eu sei que parece cedo demais mas também sei a quantidade de tralha que consegui acumular durante oito anos. No meio de cartas velhas, bilhetes de cinema e agendas desactualizadas encontrei o diário do meu primeiro ano. Durante uma hora detive-me a lê-lo. De diário tem pouco, foram raros os momentos de lucidez nesse ano e nos outros também mas já não haviam diários. A maior parte das vezes as notas eram escritas no comboio na viagem para casa o que implica que a letra torna-se, por vezes, ilegível. E ainda bem. O meu diário é uma obra execrável com a consistência literária dos livros da Margarida Rebelo Pinto mas sem a poeira milagrosa que faz as pessoas comprá-los. E ainda bem. O meu diário é de uma intimidade visceral que me incomoda. (Não deixa de ser estranho que a minha intimidade me incomode.) Acima de tudo vi que aquela pessoa que eu fui e aquela que sou, já não são bem a mesma. Ouvimos as mesmas músicas (várias referências ao Tom Jobim), mas há uma ingenuidade, uma capacidade de entrega e um deslumbramento de que já não sou capaz. Racionalmente digo que é natural. As coisas mudam e nós também. E ainda bem. Mas na realidade, a sensação que eu tive foi a de estar a ler o diário de uma estranha. Uma estranha pela primeira vez numa cidade estranha constantemente rodeada por pessoas estranhas, tremendamente apaixonada por um rapaz estranho e sempre, sempre a ouvir Tom Jobim. A melhor parte é que todas as pessoas que eu refiro já não são estranhas são verdadeiros amigos que estão na minha lista telefónica e com os quais contacto com alguma regularidade, o que é optimo. Excepto o rapaz estranho que tomou uns pozinhos de prlimpimpim e desapareceu. E ainda bem.
Se fosse hoje não teria feito nada daquilo, talvez fizesse pior mas não seria nada assim. Mas a pessoa que eu era teve de viver aquilo tudo para que eu hoje possa ser quem sou. Assim uma carmo diferente que já não escreve poesia ( e ainda bem), mas que ainda mantém uma inexplicável necessidade de escrever, em base diária o que lhe vai na alma.
Adulterando o Teixeira de Pascoais, se não fossem estes oito anos eu não era o que sou.

1 comentário:

Phi@ disse...

ja vi que es chegadita a uma especie de viver tantrico..passo a explanar: multiplicaste.te e acumulaste uma serie de experiencias, seleccionando, consciente ou inconscientemente, os trilhos da tua identidade e eis que o porto onde encostas a barca te agrada e paras no tempo para um renovar de energias e concentração de novas atitudes, desejos e fantasias!!! e biba a construção do ser que há em nós, ou, no meu caso, seres...invade.me a multiplicidade!!! nao paremos por aqui!!!